Lembranças da Minha Infância

Voltar ao tempo, pelo menos uns 50 anos, onde aconteceram muitas coisas legais e também as primeiras frustações, pelo menos das que lembro. Eu era muito moleque, apesar da timidez.  Caçula de seis irmãos, até que aos onze anos nasceu meu irmão caçula, cheguei a repetir a quarta-série por ciúmes, lia gibi em plena aula, me sabotei. Também morava conosco minha tia , irmã de minha mãe, depois que minha vó faleceu e meu avô casou novamente. Eu não era nada convencional para a época, anos 60 e 70, porque transitava nos dois mundos, de meninas e meninos. Brincava com bonecas, mas não gostava de barbies, nem queria, adorava um boneco que imitava um bebê que fazia xixi e tinha um outro que parecia o Zorro. Tinha um bonequinho do Roberto Carlos com sua cabeleira e guitarra, não sei porquê, mas achei mais interessante cortar o cabelo dele, o deixei careca. Num Natal ganhei uma harpa, onde embaixo tinha as notas embaixo que a gente podia tocar. Adorava jogar futebol com meus irmãos, uma vez , acho que tinha uns nove anos e meus irmãos mais velhos de 2 e 5 anos de diferença de mim, fizeram um campeonato de futebol no campinho com mais guris do bairro e eu enchi tanto o saco deles para jogar que eles acabaram deixando ( hoje me admiro que o tenham feito, acho que o meu poder de persuasão foi excelente), mas minha felicidade durou pouco, acho que nem cinco minutos, levei uma bolada na cara, fui nocalteada, lembro dos guris assustados ao meu redor, tive que sair do campo. Meu irmão mais velho tinha um carinho em miniatura, aqueles de coleção, que abria as portinhas, eu pegava escondido dele e usava os filtros das baganas de cigarro como se fossem pessoas, colocava dentro do carrinho, fechava as portinhas e brincava conforme minha imaginação fluia. Bambolê, Amarelinha, Biboquê, pingue-pongue, fazer pipa e empinar, jogar botão e muito mais que nem lembro agora. Ir na chácara de meus tios nos fins-de-semana na Ilha das Flores, onde tomava banho no rio Jacuí. As festas de São João onde se reuniam vizinhos e parentes com direito a prisão e pular fogueira no terreno baldio. Na Páscoa, cestinhas com ovos de chocolate e guloseimas. A tradicional árvore de natal. Minha primeira bicicleta, uma Monareta, ganhei de Natal,  meus irmãos também tinham, mas ganharam antes. Era a minha paixão, incrementei ela aos poucos com tudo que tinha direito, consertava a câmara quando o pneu furava, montava e desmontava, até que acabei tirando os paralamas, ficou praticamente pelada,  hoje diríamos que fiz uma releitura da original, isso tudo aprendi com meus irmãos, a lembrança dela está nas cicatrizes que tenho no corpo das quedas, era um pouco estabanada. Sempre fui muito curiosa, até que um dia me dei mal, fui tentar costurar na máquina de costura da minha mãe e deixei o dedo embaixo da sapata, fiquei com a agulha quebrada espetada no dedo encima da unha, devo ter chorado, não lembro, mas não foi preciso ir ao hospital, tudo foi resolvido por um experiente pedreiro que estava no Armazém da dona Ione, praticamente do lado da nossa casa que tirou habilmente a  agulha com o auxílio de um alicate. Nas férias de verão, nós passávamos dois meses, todo ano,  na praia da Cal em Torres, outra paixão minha é o mar, aquele cheiro, adorava pegar onda com minha planonda de isopor que deixava a barriga assada e a mãe passava Hipoglós, dos tantos jogos de carta não podia faltar o Nico Preto com aquela rolha queimada, jogo Banco Imobilário, Detetive e tantos outros, na rua brincar de esconde-esconde, de pegar.., na beira da praia o Frescobol… Quanta coisa boa. Como minha família era grande meu pai tinha que se virar  para aumentar a renda, além da Polícia dava aulas no colégio Júlio de Castilhos, até teve um infarto, mas não foi fulminante, minha mãe era uma economista nata, se privou de seus sonhos para nos criar e as vezes fazia sonhos e pastéis para aumentar a renda doméstica, meus heróis, nunca nos faltou nada. Na época do Natal ganhávamos roupas novas, fora isso ia passando a roupa dos mais velhos para os mais novos e também dos primos, tínhamos mesada mensalmente e o essencial a educação. Minha relação com os bichos vem da infância, minha mãe dizia que eu catava todos os bichos da rua. Dormia com os gatos na cama e a mãe também bichenta escondia as ninhadas das gatas atrás das portas da cozinha para meu pai não ver. A mãe criou galinhas. Tivemos uma cocota que bem na hora que foram tirar uma foto dela com minha irmã mais velha, ela se vingou e deu uma bela cagada nela, não esqueço, foi muito engraçado. Uma vez ganhei uma coelha e meu amigo um coelho e colocamos eles pra namorar, o coelho do meu amigo engravidou, moral da história, o meu era macho e o dele era fêmea. Tivemos muitos gatos e cães, mas os meus preferidos foram uma gata preta, que deu muitas crias, a Mimosa, que acabou morrendo em consequência do pós operatório de uma castração e também um cachorro chamado Lobo, grande, cinza, parecia um pastor, pelo menos eu queria, porque adorava assistir o seriado Rin Tin Tin, onde tinha um pastor alemão, meu sonho era ter um, o Lobo preenchia essa minha idealização, ele vivia atrás da gente e quem ele achasse uma ameaça, ele nos defendia, também perdi ele por conta de um atropelamento do lado do campinho de futebol, minhas primeiras perdas, minhas primeiras frustações. Tivemos outros cães, Pateta, Neguinha, Faísca. Na TV gostava de assistir o Sítio do Picapau Amarelo, Topo Gigio, Shazan e Sherife, meu desenho predileto em disparada era o Scooby Doo ( cadê Voceeeê!!), passava nas tardes de sábado, quando o pai comprou nossa primeira televisão colorida, tive o privilégio de assistir esse desenho em cores, achei o máximo. Outras perdas marcantes da minha infância foram de meus dois avós que morreram no mesmo ano, minha vó, mãe de minha mãe, que teve um derrame, foi tão marcante que não esqueço, tinha cinco anos, ela saindo de maca da sua residência e depois entrando no elevador do hospital, onde não pude mais vê-la, no coma teve outro derrame e faleceu em uma semana, meu vô paterno que doente íamos visita-lo no apartamento de minha tia, também faleceu em decorrência de doença no coração, talvez daí venha alguns medos que até hoje tento superar. A única coisa que lembro da casa de meus avós maternos é de um galinheiro e do quartinho de eletrônica que o vô tinha na  frente da saída da cozinha, bem pequeno onde ele organizava as ferramentas e livros de lida com eletrônica, ele era um autodidata, hoje tendo organizar um quartinho semelhante, mas para organizar ferramentas em geral, lembro dele. Em seguida que minha vó faleceu, ele prometeu nos dar um gato, que se meteu do lado da casa dele numa casa abandonada em ruínas, fomos junto com ele , pegar o tal gato, eu meu irmão dois anos mais velho acima de mim, avistamos o gato dentro da casa, só que na hora de entrar na porta, tamanho o entusiasmo, fomos os três ao mesmo tempo, mas por infelicidade nosso vô caiu sentado e eu e meu irmão começamos a rir, pra quê!, ele ficou tão brabo que desistiu de pegar o gato porque estávamos rindo, foi o sangue italiano puro que subiu a cabeça  e eu pela parte que me cabe desse sangue, também fiquei tão braba  por ele desistir de pegar o gato e nós irmos de mãos  vazias para casa, me recusei a beijar ele na despedida, e não beijei! Dizem que eu já era brabinha pela cara de braba nas fotos. Na casa de meus avós paternos, que moravam em Arambaré, só lembro de ter ganhado um pente cor de rosa e o prazer de tomar banho na lagoa dos Patos. Escrevendo essas memórias percebo como minha infância foi rica em todos aspectos, com fatos marcantes. Lembranças remontam ao tempo que já passou, é a marca impressa da nossa emoção através de um rolo de filme com imagens, sentimos a mesma emoção do passado, seja de dor ou prazer, mas é através delas que nos reconhecemos no presente. Essas lembranças da infância é apenas uma parte desse filme. Agora com cinquenta e seis anos, lembrando essa etapa da minha vida, me fez perceber que todos temos uma história a contar, no momento em que nossa longevidade o permitir, mas algumas pessoas fazem questão de esquecer por serem lembranças tristes. Por incrível que pareça fazendo um balanço  das minhas, fiquei com aquela sensação gostosa de que vivi como criança no meu tempo de criança, tive o privilégio de ser criança porque meus pais o assim permitiram, uma dádiva quando vemos tantas crianças adultizadas, acho que resignifiquei as lembranças dolorosas. Percebi que a gente trás sempre está parte criança dentro de si e que essa é a nossa parte mais pura que não devemos sufocar nunca. Permitam-se manifestar a sua criança interior, este é  segredo da nossa longevidade. Esta é a verdadeira celebração do dia da criança. Celebre esse dia todos os dias, não importa a sua idade.

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Memórias de Infância ou Uma Desculpa para Escrever sobre Nosso Melhor Amigo

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Ontem peguei um orçamento de castração para meu cachorro: 480 reais! QUATROCENTOS E OITENTA REAIS 😮

Nunca castrei nenhum cão que tive e também nunca tinha criado nenhum cão dentro de casa. Mesmo assim, os cães nos acompanham de um modo peculiar, modo esse que acaba nos marcando para sempre, quer eles tenham sido criados dentro de casa ou não.

Os cães têm uma vida muito breve: 8 – 15 anos são um respingo de tempo e, infelizmente, os cães que acompanharam a minha infância viveram menos ainda do que isso. Assim, busco honrar a memória deles hoje – relembrando sua amizade despretensiosa e sincera.

Ganhei meu primeiro cão aos 4 ou 5 anos, não sei exatamente. Mas sei da alegria imensa que tive, um cão! Só para mim! Seria meu melhor amiguinho, iríamos brincar o dia todo! Ele era bem pequetito e todo pretinho (talvez por isso até hoje acho mais bonita essa pelagem ao invés das tonalidades claras). O batizei de Tufi e, de fato, viramos melhores amigos. O Tufi vivia no meu colo, pelo fato dele ser tão pequeninho cabia certinho no meu colo também pequeno. Um dia, meu pai abriu o portão para sair com o carro e o Tufi saiu correndo lomba acima. Estava invocado com um caminhão e resolveu latir e mordiscar a roda de traz desse caminhão que estava subindo a lomba. De repente, o caminhão começou a dar ré. E vi meu Tufi ser esmagado pela roda daquele caminhão. Nunca mais vou ter cachorro de novo! Jurou a menina que acabara de perder seu melhor amigo. E, de fato, por 3 anos cumpri a promessa.

Até que uma vizinha chamou para ver uns filhotinhos que estavam recém desmamando. Cheguei lá com a certeza de que iria apenas olhar – sem compromisso. Então ela pôs no meu colo essa feminha, uma bolinha de pelo branca com amarelo queimado. Encontrei novamente uma melhor amiga! Naquela época circulava a história de uma vira-lata que havia salvado uma criança no RS, seu nome era Catita. Batizamos de Catita em homenagem à heroína local. Nessa época eu já frequentava a escola e tinha toooodas as minhas tardes sacrificadas. Tardes longaaas, horas que custavam a passar, horas que me separavam da minha Catita. Quando chegava em casa ia correndo ver minha Catita – brincávamos juntas o tempo todo, até escurecer e eu ser obrigada a entrar pra dentro de casa.

A Catita me acompanhou durante o processo de anorexia, que começou aos 9 anos. Cada vez que eu chegava do hospital, corria para abraçar ela. A Catita também estava comigo quando aprendi a andar de bicicleta. Depois de anos, compreendi que eu tinha uma cadela muito inteligente, pois ela aprendia qualquer truque que eu ensinasse – aprendeu a dar a pata, a pular, a deitar. Quando fiz 12 anos, minha mãe foi morar em outro estado, nessa mesma época, a Catita teve filhotes. Foi assim, chegando da escolha que descobri: 8 filhotinhos! Fui avisada que a Catita estava brava, pois defendia a cria e rosnava pra quem tentava se aproximar de seus filhotes. Mesmo assim, eu confiava nela. Me aproximei, me agachei e fiquei perto dela. Ela me olhou de relance e voltou à sua posição relaxada, curtindo o momento de dar o mama. Então fiz carinho nela e nos filhotes. Meu Deus, aqui me defronto com a pobreza das palavras, pois nada pode expressar o que significou a Catita ter filhotes exatamente naquele momento da minha vida.  No entanto, a gravidez acabou trazendo graves consequências para minha Catita, ela ficou doente e os filhotes também. Não sabemos o que aconteceu, não sabemos que doença foi essa, pois minha família não era chegada nessa modernidade chamada veterinário. Vi minha Catita definhando, seus filhotes começaram a morrer um atrás do outro. Traumatizei forte! Essa doença levou minha Catita e todos seus filhotes. Retornei com a minha promessa de nunca mais ter cachorro e dessa vez consegui manter por 10 anos esse juramento.

Um cão nos acompanha pelas fases das nossas vidas. Assim, o nosso primeiro contato com cão, está marcado por aquele ou aqueles cães que nos acompanharam na nossa fase de infância e é sempre deles que iremos nos lembrar.

O único cão da minha fase de vida adulta costumava ser o Merle, um buldogue campeiro – preto, branco e cinza – de 4 anos. Aceitei novamente abrir um espaço no coração para um novo cachorro, dessa vez criado dentro de casa, dessa vez com acompanhamento veterinário. Um cão de apartamento! E veio a vida e me brindou com um presente inesperado: uma cadelinha adulta me adotou (eu fui escolhida por ela), tão pequena e pretinha quanto meu Tufi.

Vida longa aos cães!

A escrita persiste

Há muito tempo não ponha a pena à mão para escrever sobre as angústias que persistem em meio aos cacos da dispersão em que se configura a vida.

No último semestre da faculdade tive que fazer uma cadeira obrigatória que era do 6º semestre, já que contratempos acadêmicos me fizeram postergar para o final do curso. Essa cadeira se chamava “Leitura e Produção de Texto em Língua Portuguesa” e como o próprio nome entrega ela servia para aprender sobre a escrita; em termos pragmáticos consistia basicamente em escrever um texto dentro de determinado gênero textual, ler para a turma, discutir sugestões de melhoria e reescrever.

Além disso, o aluno precisava entregar um trabalho final em formato de ensaio; pensei: posso pegar algum artigo que já tenha escrito, simplificá-lo e deixar em formato de ensaio (aluno sempre pensa num atalho, né verdade) Mas não! O formato do ensaio era literário; ou seja, teríamos que buscar inspiração em grandes escritores como Nelson Rodrigues e Hemingway.

Mergulhei então na tarefa de escrever um ensaio literário. No entanto, essa tarefa reacendeu mágoas antigas; tais como: por que entrei na Letras, por que continuei no inglês?! Digo que reacendeu mágoas antigas exatamente porque entrei na Letras com intuito de aprender a escrever bem para ser uma escritora famosa, tal como minhas ídolas e ídolos.

E lá estava eu: sem inspiração, sem um objeto tema para o texto; com uma estrutura coesiva feia.

Então percebi que os anos na faculdade podaram a minha habilidade com a escrita, castraram minha imaginação, destruíram minhas construções frasais à moda Hemingway. Dentro desta angústia percebi que só o que eu sabia escrever era artigo! Aliás, se esse texto fosse um artigo acadêmico eu já teria inserido alguns autores entre parênteses, seguido de ano e página.

Já faz 2 anos que passei por essa experiência da escrita do ensaio. Porém, o encontro com a escrita literária cessou ali. A criação deste blog foi o estopim para que eu voltasse a essas questões. A academia nos submete a uma produção constante de artigos, ensaios, resumos, os quais precisam estar de acordo com padrões de determinada revista e dentro das normas da ABNT – e, assim, reprimimos a escrita latente que está implorando para sair; aquela escrita rasgada que irá discutir sobre as dores da vida, as reclamações da alma; aquela escrita que substitui uma sessão de terapia, pois tudo pode ser dito na confidência entre o papel e a caneta. Essa escrita não precisa de padrões para submissão e nem normas de formalização, ela vem para estabilizar aqueles cacos de dispersão que costumam alfinetar nossa consciência.

A Finitude Humana

Quem de nós não perdeu alguém querido e importante, e nessa época de finados isso fica mais latente e reflexivo. Quando a perda é recente é preciso pelo menos dois anos para que a dor seja trocada apenas pela saudade e recordações, mas um pedacinho da gente, com certeza, foi embora junto com essa pessoa. Também são nesses momentos que nos damos conta que somos finitos  e que nunca estamos preparados em perder alguém ou de partirmos. A nossa cultura não nos prepara para isso, talvez nem queiramos.

Vou citar um trecho da escritora Lya Luft, do livro Perdas e Ganhos, que reflete bem o que sinto:

” Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi  é viver como ele gostaria que eu vivesse: bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis. A maturidade me ensinou coisas boas e belas (nem sempre aprendi bem a lição). Espero que a velhice, quando chegar, me ensine ainda mais, e me encontre mais receptiva. O essencial é a que estou vivendo seja a minha vida: não aquela que os outros, a sociedade, a mídia querem impor. Que ela seja desdobramento e abertura. Que neste universo de mil recursos e artifícios, de artefatos e inovações fantásticos, de agitação e efervescência, eu consiga ainda ter o meu lugar, aquele onde me sinto bem, onde estou confortável, não adormecido. Onde eu possa ainda acreditar: não faz muita diferença em quê, desde que não seja unicamente no mal, na violência, na traição, na corrupção, no negativo. Para que o argumento da nossa história seja o de uma viagem de reis: não um bando de ratos assustados correndo atrás de seus próprios reflexos num labirinto espelhado.”

Acredito na finitude do corpo (parte física) e não do ser, da nossa essência (alma), acho que aí está o nosso verdadeiro tesouro e que essa de alguma maneira retorna para o nosso planeta para se fazer cumprir o seu papel. O dia que nos tornarmos cônscios disso não haverá mais sofrimento pois teremos compreendido o nosso papel no Universo.